sábado, 4 de outubro de 2014

Entrevista - Yersiniose

Vamos ao ponto inicial da fecundação á peste, quando surgiu o projeto e ás influências para o nome?


O Yersiniose existe como idéia há uns 9 anos, na época meus projetos de ruído estavam parados e eu tocava percussão de sucata e eletrônicos no Eraserhead, banda pós punk que flertava com o industrial. Tocar maquinalmente sucata fixou a repetição como elemento chave na minha música. O nome começou a ser usado há 4 anos, ele não foi escolhido, foi imposto por uma série de coincidências estranhas. Fui chamado de rato e ameaçado por um neonazista aqui em Curitiba, a gata que tínhamos em casa trouxe uma bela de uma ratazana como refeição para os quatro filhotes enquanto eu lia o “A Peste” do Albert Camus, dias antes li a HQ Maus do Art Spiegelman e os ratos, vivos e mortos que antes não me roubavam atenção começaram a possuir algo mágico, um significado quase esotérico/premonitório. O rato e a pulga não são responsáveis pela peste, a bactéria é. O neonazi supracitado acertou, eu sou um rato.

Industrial-eletrônica-ruídos, que diabos e diretrizes á seguir? Qual o contato inicial a esse tipo de música não convencional?

A música de ruído produzida de maneira planejada, executada com rigor e sua interação com a arte não sonora é a razão de ser do Yersiniose. Faço música de ruído desde 2003, em 1998 quando ainda era um adolescente envolvido com a “cena” black metal cheguei a fazer experimentos com gravadores de fita, um casiotone podre e alguns pedais de guitarra, nessa época eu era motivo de piada entre meus pares mais “reais” por apreciar alguns projetos “esquisitos”, com elementos de música eletrônica, ruído e sem guitarras. Em 2000 comecei a escutar e tentar produzir noise, power electronics e música industrial. Agradeço aos compartilhadores de arquivos como o soulseek, sem eles eu não teria conhecido a maioria dos meus melhores amigos e contatos. Trocar experiências sobre meios de produção, estética sonora e o cotidiano com artistas já ativos e alguns que como eu estavam apenas começando foi essencial. É importante mencionar alguns nomes como o Lucas Pires (Dedo), Thiago Miazzo, J-P. Caron, Max Chami (Antoine Trauma), Gustavo Bode (Projeto Berros), Rafael Zaina (No Lyrics Records) e o meu compadre e sócio Guilherme Nahes (Afro Hooligans). Igualmente importante foi a construção da amizade com o Carlos Morevi e Theo Szczepanski, os dois me repassaram muito know how sobre equipamento, processos de gravação e como me preparar para poder tocar ao vivo, os shows dos Gengivas Negras que acompanhei tanto como público como um tipo de “roadie” ocupam um lugar de destaque nas minhas memórias. As viagens para Florianópolis e conversas por telefone com o Batavo (Abesta) também merecem destaque, uma vez indaguei ele sobre o que eu deveria começar a comprar para montar o meu setup de equipamento físico. A resposta foi um resumo sobre a questão do indivíduo versus meio de produção apresentada de maneira extremamente prática. “Monte um setup, deixe duas pessoas tocarem ele, dificilmente irão tirar resultados que se pareçam.” E foi o que ele fez para me provar de maneira empírica a sua afirmação. Como a Tita, esposa do Carlos bem colocou, eu era uma espécie de adepto que decidiu seguir as doutrinas e ensinamentos do ruído como forma de música.
2008 presenteou-me com alguns problemas pessoais que não precisam ser mencionados aqui, situações deploráveis permitiram reflexões sobre a necessidade de um ponto de virada e uma atitude mais séria em relação a vários aspectos da minha vida. O Yersiniose e o meu retorno às artes visuais são frutos desse comprometimento com a seriedade.


Possui projetos paralelos, têm previsão para trabalhos futuros, nos apresente os projetos que já foram enterrados, o que costumava tocar?

Não considero paralelos, são projetos colaborativos que possuem propostas bem distintas do que faço como indivíduo. Apenas o Paralyzed Blind Boy está oficialmente ativo e ele difere de maneira drástica do Yersiniose. Ele é criação do Guilherme Nahes e por mais clara que seja a afirmação dele de que eu sou membro em tempo integral com direitos iguais eu respeitosamente digo que sou apenas um anão de palco que comprou a brisa errada dele. A dinâmica do PBB me permite uma liberdade maior, é um lugar em que habito de forma mais solta, podendo oscilar entre descontrole auto destrutivo e um estado de transe hedonista. Até a maneira que eu me comporto em palco é distinta, normalmente sem camisa, bebendo além do sensato e sem compromisso em transmitir nenhuma mensagem minha, sou apenas um instrumento que serve aos propósitos combinados com o Guilherme e suas idéias de arte e performance. Outros projetos estão temporariamente inativos, sou metade do Impoluto, que toco adiante com o Theo Szczepanski e fazemos algo que pode ser definido como ruído de trogloditas e jazz de bêbados praticando uma sessão de descarrego, é improviso sujo e feio. Com o PP Hubner tocamos como Dybbuks uma tentativa bizarra de musicar nossas discussões sobre religião e filosofia, especialmente mitologia judaica anterior ao monoteísmo. Entre 2003 e 2005 gravei muito, usando vários nomes, não me envergonho do que produzi, só não considero esse material digno de nota ou atenção. O INVICTO e o EU (com o Rafael da No Lyrics Records) são dois grupos que não faço mais parte e valem uma conferida.
O futuro é um assunto mais pertinente. Há algumas colaborações planejadas, um projeto MUITO especial envolvendo uma peça do J-P. Caron e espero finalmente dar vida a um projeto novo, que eu defino como a irmã descontrolada do Yersiniose, aquela mulher que fuma na cama, dorme com vários caras e gosta de bater durante o sexo.

Suas telas sempre estão disponíveis em eventos direcionados á música-ruído, ambos possui alguma ligação?


O trabalho como artista visual e sonoro é inseparável e eu não faço distinção entre eles, a minha vida/interesses pessoais e o trabalho que paga as minhas contas, há uma retroalimentação de idéias, processos, algumas limitações e neuroses. Utilizo nos visuais métodos semelhantes aos da música de ruído. Gosto de subverter de forma planejada “regras” tradicionais do uso dos materiais e suportes. Ordenar sujeiras e borrões até formar um retrato distorcido que exija do receptor paciência e atenção ao que ali foi deliberadamente deixado incerto. O mesmo vale para a corrupção de elementos que previamente eram “puros” em “imperfeitos”. Imprimir uma matriz de gravura em madeira cuidadosamente talhada sobre uma tela não preparada é um bom exemplo, a superfície áspera da tela gera falhas na impressão, espaços em branco quebram linhas antes perfeitas, áreas contínuas que deveriam transferir blocos de cor chapados, geram meios tons pouco controláveis, comparo ao ato de se gravar um som limpo em um gravador de fita sujo, usando um k7 velho, ali frequências serão perdidas e ruído surgirá. A quantidade de tinta na matriz age sobre a tela assim como o calor do sinal que entra no cabeçote afeta a saturação gravada na fita, posso mencionar um exemplo mais conceitual como a quase dogmática idéia de que uma gravura precisa de uma boa margem em branco que dê espaço para a composição, “ar” para ela respirar. É nesse espaço também que a obra é assinada e numerada. Eu em algumas gravuras prefiro imprimir a extensão completa do papel, ou cortar as margens, tirando a possibilidade de assinar e numerar, saturando as bordas e libertando-as da prisão formada pela área branca, simultaneamente é retirada delas a condição de um número que pertence a uma série. Ocupar toda a área do papel é similar ao efeito de saturação de um espaço usando-se sons. 

Uma afirmação de que noise deve ter feedback, momentos de silêncio e explosões de ruídos, surgi á dúvida, frequência continua de ruídos rosas sem muito níveis de volumes e tonalidade, seria um noise-juvenil para você??


Essa pergunta é bacana, uma vez você me pediu opiniões uma vez sobre um certo disco. Eu fui realmente duro nas críticas que fiz a ele. Comentei o que eu achava poderia ser feito para o mesmo chegar mais próximo da proposta que o texto de divulgação enunciava. Nem entrei no mérito se o mesmo era juvenil ou maduro. Era uma parede de ruídos sem movimento com um ou outro elemento pouco dinâmico entrando levemente para a frente de um muro de estática, era quase um disco de Harsh Noise Wall. Posso continuar no jogo dos rótulos perguntando se Power Electronics é ruído montado com estrutura de canção e vocais na frente do mix. Rótulos são ótimos facilitadores, especialmente para marketing e catalogação. A última pergunta que me foi feita quando foi terminado o upload do meu álbum 1911 foi: “e agora, que tags usar?” A minha resposta: “Essa é uma pergunta difícil. Acabamos usando alguns rótulos que possuem vínculos com o que faço. Sinto-me extremamente bem com essa incapacidade de encarcerar minha música em um termo.

Um passarinho azul, disse que essa mente  doentia vêm preparando os primeiros álbuns oficiais da bactéria Yersinia, quais ás expectativas, o que podemos esperar?

1911 foi recentemente publicado pela Seminal Records em sua versão online, Traços e nervos deverá sair até o fim do ano, ambos terão edições físicas. Os dois representam bem o perfeccionismo quase patológico que busquei desde o começo do Yersiniose. Precisei de quatro anos de projeto, mais de 10 shows, uma porrada de sons publicados como estudos para finalmente assinar algo como pronto. Sem modéstia alguma digo que são dois álbuns sem comparação, são meus, nada neles foi escrito para se encaixar em definições simplórias como noise, industrial ou drone. Todo o repertório de timbres e arranjos é único e os visuais vão valer cada centavo dos que estiverem dispostos a abrir a carteira. Sobre a música, posso dizer que são longas, não há surpresas ou “pirotecnias”, elas foram construídas como exercícios de meditação e paciência, não são de maneira alguma uma forma de entretenimento. 1911 é mais agressivo, Traços e nervos é mais introspectivo. Recebi comentários variados. “São cheias de decepção e decrepitude.”  “A agressão aplicada em repetições converte-se em paz meditativa.” Você os escutou, sinta-se livre para comentar.

Atualmente vêm surgindo inúmeros projetos/pessoas fazendo NOISE, e diversos festivais para música-ruído, qual sua opinião sobre o assunto?

Sobre o número crescente de pessoas envolvidas com música de ruído? Acho ótimo que exista renovação. Sem medo de parecer amargo ou arrogante eu digo que boa parte vai sumir do mapa tão rápido quanto surgiu. É fácil gravar “barulhos” e pagar de descolado para amigos em uma rede social repetindo o clichê “anti-música”, “anti-arte” rebeldão. O tempo e a falta de recompensas rápidas se encarregam de expurgar quem não possui interesse genuíno. Aqueles que só se importam em divulgar o próprio material, reclamam de críticas, sequer se dão ao trabalho de escutar seus pares, não comentam/discutem música de ruído e seus meios de produção e tampouco possuem intenção de se apresentar ao vivo não farão falta. Fazer música de ruído por anos requer stamina e um senso de comunidade.

Sobre os festivais, são tantas as boas iniciativas que listar todas seria monótono e alguém poderia se sentir esquecido. Poderia também perturbar por aqui falando sobre algumas iniciativas…


Antes de qualquer performance, você costuma a ensaiar e preparar um set, durante os live você mantém a mesma linha de som até o final ou termina no improviso?

No Yersiniose há uma pré rigorosa antes de qualquer show e gravação, primeiro eu passo a música ou idéia para o papel, penso que equipamento será necessário, o que precisará ser adaptado e então começo a ensaiar. Eu não sou um fetichista, se para tocar ao vivo em determinado evento eu só puder usar um laptop e um controlador, assim será. Uma vez no palco existe sempre espaço para algum improviso e o imprevisto é abraço como parte do processo.

Obrigado por disponibiliza seu estupido tempo para essa entrevista, Quer deixar seu recado é iniciar alguma treta?

Sem tretas. Eu é que agradeço pelo espaço.

Noise rítmico ou junkie plugs? Ambos
Materiais físicos ou Netlabel? Ambos
Sertanejo Clássico ou Sertanejo universitário? Prefiro escutar um prédio sendo construído.
Split ou Álbuns Solos? Ambos.
Policia ou Ladrão? Nenhum.

Yersiniose - 1911



01 - Desgosto
02 - Fratura
03 - Travessia
04 - Degredo

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God Pussy - Live I Festival de Ruído



01 - Pessoas # 1
02 - Performance
03 - Pessoas # 2

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Aural Bile - Live Bile



01 - Live Bile

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AEdB - Cones e Glóbulos Galeiformes De FrequêNcia e Períodos Logarítmicos



01 - Refração Doppler pt 1
02 - Refração Doppler pt 2
03 - Semiótica penada pt 1
04 - Semiótica penada pt 2
05 - Semiose penosa pt 1
06 - Semiose penosa pt 2
07 - Reflexão nebulosa da galinha fugitiva pt 1
08 - Reflexão nebulosa da galinha fugitiva pt 2
09 - Reflexão nebulosa da galinha fugitiva pt 3
10 - Continuidade sônica da radiação de Bok pt 1
11 - Continuidade sônica da radiação de Bok pt 2

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Vulgar Disease - When You Get Drunk I´Ll Be The Wine



01 - You Left Me Drowning In My Tears
02 - Baby You Know My Hands Are Dirty
03 - [ Guitar Solo ]
04 - When You Get Drunk I´Ll Be The Wine

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Whorifik - La Fin des Périodes



01 - La Fin des Périodes

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Gustavo Jobim & Visszajáró - Arrival



01 - Confusion Is Profit
02 - The Visitor
03 - Wastelands
04 - Mooney Sense
05 - Forgotten Temple
06 - Whoever Seeks Never Finds
07 - Wounds That Heal
08 - Mother Consumption

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Porraloka - Punk se Không Bao Giò chêt



01 - Punk's Not Dead! (Vira O Disco Também Né! Parece Uma Vitrola Quebrada!)
02 - Punk's Not Dead!! (Parece Um Papagaio! Mostre Pra Sociedade Muito Mais Do Que Um Simples Slogan)

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Rizco - Antimosfera



01 - IN
02 - Antimosfera
03 - Aufheben
04 - Incendicida
05 - Interludio Miotto
06 - Corra Lula Corra

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