quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Entrevista - Gustavo H Serpa (BATA)


Para iniciarmos, nos diga como foi o primeiro contato de música-ruído, como aconteceu, foi fácil digerir pela primeira audição?

Se não me falha a memória, o meu primeiro contato com o “noise” foi por volta de 1998. Nessa época eu era aficionado por rock progressivo, lendo na internet um artigo sobre prog me deparei com o nome de um certo japonês que havia recém lançado um disco “barulhento e de difícil audição” – que não era de rock progressivo –  mas que se utilizava de títulos de músicas e “samples” de bandas progressivas européias e italianas (Van Der GraafGenerator, Soft Machine, Le Orme, entre outras). Essa matéria estava se referindo ao disco “AquaNecromancer” do Merzbow.  Curioso, comecei a procurar na rede por informações sobre esse artista, foi quando encontrei para ouvir a faixa “CanibalismofMachine” do disco Tauromachine, ali não tinham os samples das bandas progressivas que havia lido no artigo mencionado, porém àquelas pulsações do EMS SynthA em meio a um verdadeiro caos de “feedback” e  “scrap metal” atingiram em cheio a minha audição. Depois de ouvir àquilo, apesar de ter ficado perplexo, foi impossível ficar indiferente. De pronto, revi todos os meus conceitos musicais e imediatamente encomendei pela Amazonuma coletânea denominada “The Japanese/AmericanNoiseTreaty”, lançada pelo selo Release Records, a qual, aliás, recomendo à todos que tenham curiosidade em conhecer o estilo. À partir daí o meu interesse e a minha coleção de artistas “noise” e afins não parou de crescer.

Através de tanta criatividade e brutalidade quais recursos utilizados para o processo e criação de suas obras? Quais são suas influências?

Logo quando comecei a ouvir “noise” comecei a me aventurar em fazer experimentações com ruído e microfonia. Como nunca tinha tido contato com nenhum instrumento, e muito menos conhecimento sobre teoria musical, acho que foi mais fácil para mim criar algo mais abstrato, mais livre, sem qualquer tipo de ligação, ainda que de forma inconsciente, com os conceitos tradicionais de qualquer estilo de música. Nem mesmo àqueles considerados mais extremos (Punk, Death, Metal, Grind, etc.) interferiram nas minhas concepções sonoras.

Essa liberdade, calcada na “ignorância em fazer música”, sem dúvida nenhuma me condicionaram a ter uma maior espontaneidade nas minhas criações. Obviamente, aliado a essa liberdade, também está o fato de não se deixar levar por críticas e opiniões desfavoráveis dos outros. Sigo o seguinte pensamento: faço o que quero fazer, se as pessoas gostarem, ok, se não gostarem, eu não me importo, fodam-se! Esse posicionamento, por mais arrogante que possa parecer, considero como sendo o alicerce do meu trabalho, é a base para criação do que chamo de arte autêntica, sendo aplicável não só à música, mas também à pintura, escultura, cinema, enfim, à qualquer manifestação artística.
Ao vivo, o resultado que pretendo atingir não é sonoro, mas sim físico, desse modo não busco agradar o ouvido da audiência com notas musicais, mas sim estimular os seus corpos através de frequências extremas. Por isso o alto volume é um dos elementos indispensáveis naquilo que faço.
No que diz respeito aos recursos técnicos utilizados nas minhas gravações, no início, me utilizava de microfones de contato, conectados à objetos de metal, que eram processados através de diversos pedais efeito. Atualmente, venho utilizando o laptop rodando softwares específicos para experimentação sonora, assim como um sistema de síntese modular, no formato Eurorack, dedicado à execução de ruído/noise.

Quanto às influências, fica nítido nas minhas gravações mais antigas, e nos discos de Abesta – talvez excetuando-se o primeiro -  que o “noise” japonês é o que mais me influenciou. Porém, hoje em dia, existe uma gama muito maior de elementos que influenciaram, e vem me influenciando, no que venho fazendo.

Porque o abandono do pseudônimo ‘BATA’? Muitos músicos que não possuem seu contato procuram saber por BATA, e só encontram o myspace, existe alguma página aonde possui seu material disponível?

Na verdade BATA era nada mais nada menos do que a abreviação do meu apelido de infância. O utilizei em alguns lançamentos porque, à época, descobri que havia um cantor cearense de casamentos e bailes de debutantes que, coincidentemente, tem o nome quase igual ao meu. Como esse cantor já tinha bastante material disponibilizado na internet, para que as pessoas não se confundissem, achei por bem não usar o meu nome.

Hoje em dia acho isso uma grande bobagem, por isso venho utilizando o meu nome nas minhas gravações. Talvez, se um dia encontrar alguma denominação que simpatize para identificar o meu projeto, vou usá-la. Além do myspace (que inclusive está extremamente desatualizado), não possuo nenhuma página na internet. Não descarto a possibilidade de, em um futuro próximo, lançar uma Home Page, já que tenho aversão à facebook, twitter e a qualquer outro tipo de rede social.

Poderia nos dizer um pouco do DUO 'Abesta'?

Abesta teve início no final de 1998, logo quando comecei a gravar alguns experimentos com pedais e sintetizador em casa. O Zimmer, segunda metade do duo, além de ser meu amigo desde a infância, já tinha experiência com banda e gravações, então resolvemos editar esses sons que havia gravado, incluir outros e acrescentar vocais em algumas faixas. Desse processo saiu o primeiro Cdr de Abesta (“Procrie a virtude desse que te orienta”).

Depois disso, graças a um amigo nosso que gentilmente cedeu o seu estúdio para experimentarmos novos sons, gravamos mais três ou quatro CDRs, estes, diferentemente do primeiro, são mais crus e abstratos, sem overdubs, com pouca ou quase nenhuma edição. Na verdade estes discos nunca chegaram a ser lançados oficialmente por nenhum selo, nem por nós mesmos, mas sim distribuídos pessoalmente após algumas apresentações. O único disco de Abesta propriamente lançado foi um cdr chamado “Tosco”, que saiu pelo selo Sonora, de Porto Rico.

Abesta chegou a fazer em torno de uma dezena de apresentações ao vivo, com mais frequência na nossa cidade (Florianópolis) e no sul do país.

Quanto ao término do duo, posso dizer que ele acabou da mesma forma que começou, ou seja, de forma espontânea e natural. Na verdade, o Zimmer já tinha um projeto (Ambervisions), bem como estava iniciando como membro de outro (Cassim e Barbária), que não tinham nenhuma relação com “noise” e música experimental. Nessa mesma época eu também comecei a despertar um maior interesse por laptop e softwares como ferramentas para compor e executar “noise”. Trilhar esses dois caminhos opostos certamente iria tomar muito do nosso já escasso tempo. Por esse motivo, continuar com a dupla, pelo menos para mim, passou a não fazer mais sentido. Para ser sincero, eu nunca parei para analisar esse fim, aliás nunca ninguém tinha me perguntado à respeito.

Mesmo afastado da cena, você se mantém atualizado, chegou a sair em algumas coletâneas internacionais e tributo ao Zbigniew, e os lives? Estão acontecendo ou esse será um processo mais trabalhoso?

Eu nunca parei de gravar, tenho horas de experimentações gravadas, mas muito pouca coisa que classifico aproveitável para disponibilizar. Na verdade, me considero extremamente autocrítico quanto ao meu trabalho. Em decorrência disso, além de ter muito pouco material lançado, todos os meus lançamentos tendem a ser mais lentos e trabalhosos. Essa lentidão não decorre das gravações em si mas sim do considerável tempo despendido na escolha dos sons que serão utilizados.
Além disso, tocar e compor “noise” é apenas um hobby para mim. Tenho outras atividades, além da dedicação à família, que tomam a grande parte do meu tempo.

Por outro lado, entendo que, no caso do “noise”, as apresentações ao vivo funcionam muito melhor do que as gravações em estúdio, desde que o PA do local seja adequado e potente para esse tipo de som (e que, obviamente, o técnico atrás da mesa de som colabore ou pelo menos não atrapalhe).
O problema é que, no Brasil, infelizmente, é raro encontrar um local que disponibilize um PA potente e de qualidade. Por isso, e em virtude de ter sofrido várias frustrações por conta disso, decidi investir na aquisição do meu próprio PA. Ele está longe de ser o ideal, mas funciona razoavelmente para atingir o resultado sonoro que pretendo obter. Também vou passar a gravar todas as minhas eventuais apresentações ao vivo. Só espero que não me falte oportunidade para isso.

Em 2009 você esteve no ‘Fukuoka Extreme Music’, como foi dividir o palco com os Japanoise?

Tocar “noise” no Japão, por si só, já é uma experiência incrível. Sobre a apresentação no Fukuoka Extreme Music, agradeço essa oportunidade integralmente aos esforços do Peter Gossweiler, figura competente e conhecida da música experimental aqui no Brasil, com quem dividi o palco nesse Festival. De fato, presenciar a energia do Incapacitants ao vivo é algo que não existe palavras para descrever.

Fácil perceber sua ligação com o Zbigniew, certamente uma grande perda, vocês mantinha bastante contato e planos para trabalhos futuros, como será o lançamento e divulgação desse material que agora será em memória de Zbigniew?

Karkowski não era apenas um grande amigo e excepcional artista, mas uma espécie de mentor. Muito do que faço e do que penso em relação à música em geral devo à ele. Toda vez que conversamos, por email ou tomando biritas em algum bar sujo, aprendia algo. Na verdade, o mais curioso é que falávamos muito pouco sobre música, noise e afins. Apesar de ele possuir um gênio forte e uma sinceridade assustadora (que muitas pessoas confundiam com arrogância), ZK era um ser humano fantástico, cuja falta sempre será sentida, como amigo e artista.

Há pelo menos 2 anos e meio venho trabalhando junto com Dennis Wong, e o próprio Karkowski, na publicação de um livro bilíngue (inglês/português), que virá acompanhado de um DVD, intitulado “OrderisanException”, contendo uma coletânea de artigos escritos por terceiros sobre o trabalho do ZK, muitos deles já publicados em revistas e na internet, além de entrevistas e ensaios.
A idéia era lançarmos no início desse ano, porém com o repentino  falecimento do  Zbigniew, eu e o Dennis optamos por postergar a publicação para incluir novos textos póstumos escritos por pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Ainda não recebi a totalidade desses textos para serem traduzidos para o português. Assim que os receber, e as traduções estiverem concluídas, a minha ideia é tentar lançá-lo até a metade do ano que vem. O livro será publicado na China.

Existem planos futuros, algum material engatilhado?

Como já havia dito no inicio da entrevista, nunca parei de gravar. Quero ver se até o inicio do ano que vem consigo reunir material suficiente satisfatório para, finalmente, lançar um álbum. Ele vai soar bem diferente das minhas gravações anteriores, porém sem perder a essência do meu trabalho, ou seja, continuará sendo abrasivo e intenso.
Aliás, não descarto a possibilidade de lançar um álbum duplo. Ainda não sei se vai sair por algum selo especifico, mas posso afirmar que o lançamento não será em formato digital, mas sim físico.

Ultimamente vêm surgindo bastantes músicos de ruídos e fácil acesso a eles, qual sua opinião de diversos álbuns lançando em um pequeno espaço de tempo e a cada dia o surgimento de novos artistas da musica ruidosa?

Devido ao fato de não estar integrado nas redes sociais e considerando que aqui em Florianópolis nada acontece em relação ao “noise” ou música à experimental, admito que estou um pouco por fora sobre novos artistas da música ruidosa. Contudo, principalmente através do seu blog, é fácil perceber que atualmente não só existe uma variedade bem maior de projetos, em relação aos que existiam anos atrás, bem como há uma maior identidade desses artistas com o estilo.
Antigamente qualquer bandinha convencional e barulhenta de Death Metal era taxada de “noise”. O mesmo acontecia com alguns artistas ou bandas de rock que, por conter alguns eletrônicos pouco convencionais nos seus sets ou shows, eram automaticamente consideradas “experimentais”.  Sou contra rótulos, mas me irrita muito quando um “crítico especializado” define o som de determinado artista ou grupo como sendo “noise” ou experimental sem nem saber do que se tratam esses estilos.  Pior do que isso, é quando o próprio artista é quem se auto-define sem nem saber do que está falando. Claro que não estou me referindo a ninguém especial, muito menos fazendo insinuação de nenhum artista mencionado no seu blog.

Ultimamente verifico que estas distorções reduziram bastante comparado ao que era há alguns anos atrás. Isso significa dizer que existe uma maior identidade dos novos artistas com o “noise” e, consequentemente, uma maior coragem e ousadia por parte destes em divulgarem os seus trabalhos,  já que gravar e apresentar esse tipo de trabalho para o público não é uma tarefa fácil.
Para concluir, vejo esse surgimento de novos artistas como um aspecto positivo e promissor, principalmente em termos do Brasil (que é o país dos “cordeirinhos”), onde só prospera àquilo que dá dinheiro e é de fácil assimilação.

Obrigado pela contribuição com o blog e por fazer um excelente trabalho ruidoso, o espaço é seu, sinta-se livre para deixar sua mensagem e fazer o que achar necessário.

Muito obrigado pelo espaço e pelo elogio. Na verdade acho que já escrevi demais, a única coisa que tenho a acrescentar é que continue com o seu trabalho ruidoso e que seja perseverante quanto ao seu blog, o qual tenho visitado frequentemente para me atualizar e conhecer novos trabalhos.

Responda rápido!

Noise Rítmico ou JunkiePlugs? Tanto faz.
Analógicos ou Digital? Irrelevante, o que interessa é o resultado pretendido.
Materiais físicos ou Netlabel? Físicos, sempre.
Sertanejo clássico ou Sertanejo universitário? O primeiro, por que é autêntico.
Split ou Álbuns Solos? Indiferente.
Policia ou Ladrão? Difícil dizer, pois atualmente essas terminologias andam muito confusas.

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